Bem, fazer toda uma aventura automobilística pela Patagônia e não falar dos veículos que nos conduziram seria uma heresia!!! Eu já havia comentado anteriormente em outro post que eu fazia uma idealização a respeito do veículo nesse tipo de viagem. Sempre pensava que deveria ser o proprietário de um 4x4, que este seria o veículo mais conveniente e adequado (e no fundo, até é, mesmo), que assim teria mais “cara de aventura”, etc etc. Só que isso terminava por bloquear as possibilidades, em função do elevado custo/benefício desse tipo de veículo. Ou seja, faltava grana para ter o veículo ideal. O que fazer então?! Viajar com o veículo disponível! Essa possibilidade materializou-se na figura do nosso Fiat Palio Adventure 1.8 – gasolina - modelo 2004. A Palio mostrou-se um carro excelente, com sua suspensão reforçada, maior altura do solo do que os veículos de passeio normais, pneus off-road 50% e um excelente motor de 103 cv. Um carro muito confiável, que inclusive nos permitiu encarar com segurança a famosa Ruta 40, no segmento de rípio entre El Calafate e Rio Mayo, trecho tão desejado pelos aventureiros dos confins patagônicos. O nosso parceiro de viagem, o Fernando, utilizou sua Palio Adventure 1.6 16V – modelo 2002, outro excelente veículo, apelidada durante a viagem de “coche gris”. Mais adiante eu explico melhor essa história do “coche gris” e do “coche rojo”!!! Mas, para finalizar este post, não deixe de viajar para a Patagônia por não possuir um veículo off-road; essa é a minha mensagem!!!
A Expedição Patagón I percorreu aproximadamente 10.000 km entre a ida e o retorno da Patagônia. Conforme havia comentado em post anterior, o planejamento inicial sofreu alguns ajustes durante o transcurso da viagem.
Em primeiro lugar tivemos que alterar a nossa entrada na Argentina. Inicialmente prevista para ser feita através de Paysandú (Uruguai) - Colón (Argentina) foi alterada para Uruguaiana (Brasil) - Libres (Argentina). Isto porque em meados de fevereiro de 2006 argentinos e uruguaios entraram num conflito motivado pela construção de fábricas de celulose na fronteira entre os dois países, as "papeleras" no Uruguai. Ambientalistas argentinos da Província de Entre Rios, contrários aos empreendimentos industriais, bloquearam as pontes internacionais General Artigas (Paysandú - Colón) e General San Martin (Mercedes - Gualeguaychú), impedindo a comunicação entre os dois países. Interessante é que até hoje, em 2008, a Ponte Internacional General San Martin continuava bloqueada! "No te dejan pasar!" Os argentinos, quando protestam, é prá valer!!!
A segunda alteração substancial do roteiro foi evitar Buenos Aires. Os veículos estavam revisados e seria desnecessário entrar na metrópole por qualquer motivo que fosse. Então, escolhemos passar o empalme de Zarate /Campana, seguindo até a simpática Mercedes. Foi uma ótima alteração!
A próxima alteração deu-se a partir de Mercedes. Não seguimos o litoral da Província de Buenos Aires como se pensava no início. Optamos por tomar a Ruta 5 e seguir em direção a Trenque Lauquen e depois pela Ruta 33 até Bahia Blanca, onde pernoitamos. De Bahia Blanca tomamos a Ruta 22 e depois a 251 até Puerto Madryn, ao invés de passar imediatamente para a Ruta 3.
Seguindo adiante, depois do pernoite em Puerto San Julian, evitamos a cidade de Rio Gallegos, capital da Província de Santa Cruz, pois até onde eu fiquei sabendo não existe nada de muito interessante para conhecer no local, servindo apenas como ponto de logística para o viajante que passa pela região. Obviamente é uma cidade importante, mas sem interesses do ponto de vista turístico. Seguimos direto para El Calafate.
A última modificação no roteiro ocorreu após a cidade de Neuquén, que também não estava prevista na viagem, quando ao invés de voltarmos em direção à cidade de Bahia Blanca, optamos por seguir via Santa Rosa, capital da Província de La Pampa. Também foi muito interessante conhecer a simpática cidade pampeana.
A figura mostra o trajeto definitivo da viagem e assim fica mais fácil para entender! Muitas dessas alterações resultaram de um estudo mais detalhado dos mapas rodoviários, principalmente aqueles disponibilizados pelo Guia YPF da Argentina e também no site disponível na internet www.guiaypf.com/.
Um dos meus interesses na viagem para a Patagônia era conhecer um pouco mais a respeito das atrações naturais da região, umtanto óbvio, é claro! Mas se deixasse para me ocupar dessa atividade apenas nos locais de interesse sobraria um tempo bem menor, pois grande parte do período seria utilizado nos deslocamentos de carro pelas “rutas”. Assim, sabendo que iria percorrer longas distâncias nas estradas e que, segundo alguns relatos de outros viajantes, isso poderia ser algo tedioso, procurei estudar um pouco a respeito dos biomas da Argentina. Desta forma, na estrada mesmo, poderíamos aproveitar as paisagens que estivessem em nosso trajeto, observando as características de cada área, as formações vegetais e fazendo avistamentos de animais. Isso tornou-se uma idéia bem interessante, pois a Expedição Patagón percorreu cinco biomas da Argentina em seu trajeto, sendo que todos puderam ser bem identificados e reconhecidos. Criamos assim um entretenimento proveitoso para enfrentar as longas estradas e, pelo menos para mim, muitíssimo fascinante, afastando por completo a possibilidade de tédio na viagem.
Um check list é algo muito pessoal e vai depender dos propósitos da viagem. De qualquer forma eu sempre dou uma olhada nos check lists de outros viajantes e elaboro o meu de acordo com as minhas necessidades. A lista que segue abaixo pode ser útil para quem vai viajar de carro para a Patagônia do final da primavera até o início do outono. Se for o caso de viajar no inverno serão necessários outros cuidados, pois as correntes de pneus serão obrigatórias, além de fluídos especiais do veículo para as baixas temperaturas.
Pessoal: carteira de identidade, carteira de motorista, permissão internacional p/ dirigir (Chile), cartão de crédito internacional, relógio, óculos solar, canivete, chapéu e gorro (frio), bota de caminhada, tênis, sandália, chinelo, calça jeans, bermuda, roupa de banho, meias, camiseta, blusão, casaco impermeável para chuva (anorak), luva, toalhas de banho e rosto, mochila de ataque (25L), bolsa de viagem (flexível), travesseiro, máquina fotográfica, cartão de memória, DVD/CDs virgens, tripé, bolsa para equipamento fotográfico, pilhas recarregáveis, carregador, notebook, cabo USB, binóculo, telefone celular, carregador de telefone, agulha, linha
Camping: saco de dormir, lona plástica, panela, prato, talheres, caneco, isqueiro, fogareiro, refil de gás, cantil, bombona de água, cobertor, lanterna, potes plásticos, espetos, grelha, cuia, bomba, garrafa térmica, aquecedor portátil elétrico, abridor de latas, candeeiro, rolo de cordão, pá portátil, corda de varal, prendedores
Veículo: documentos em nome do motorista, seguro total, seguro carta verde, autorizações consulares (p/ veículo alienado), fones de embaixadas, legislação de trânsito e recomendações da Argentina, 2 estepes, 2 triângulos, extintor de incêndio, caixa de primeiros socorros, cambão ou cabo de reboque 2 – 3 metros, fósforos, caixa de ferramentas, lixa, arame, martelo, fita isolante, extensores, fusíveis, saco de estopa, óleo do motor, galão de combustível reserva, cabo ponte, chaves extras do carro, cadeados, reparador instantâneo de pneus, rádios portáteis, GPS, mapas e guias, canetas, lápis, bloco de notas, silver tape, contact, bússola, música (CDs, mp3), som portátil, planilha e anotações, agenda de telefones importantes (participantes)
Alimentação: massa instantânea, sopa instantânea, bolachas, chá, café , instantâneo, sal refinado e grosso, açúcar, leite em pó, suco, chocolate em pó, pão de sanduíche, erva-mate, barra cereais, banana passa, atum/sardinha em lata, salame italiano, queijo, frutas
Higiene e limpeza: papel higiênico, sabonete, pasta de dentes, escova de dentes, cotonetes, barbeador, creme de barbear, fio dental, pente, escova, cortador de unhas, xampu, creme hidratante, desodorante, detergente, esponja, rolo de papel, sacos de lixo, panos de prato, panos de limpeza, esponja
Farmácia: protetor solar, protetor labial, repelente contra insetos, mat-inset, analgésico, antitérmico, pastilhas para garganta, comprimidos contra diarréia, comprimidos contra enjôo, buscopan, pomada anti- inflamatória, emplastro, micropore, esparadrapo, gaze, atadura, termômetro
A primeira viagem para a Patagônia foi carinhosamente denominada de Expedição Patagón, uma forma de referência aos povos indígenas que habitavam a região, denominados de "Patagones" pelo navegador Fernando de Magalhães em sua viagem de exploração da passagem entre os Oceanos Atlântico e Pacífico. A viagem foi pensada conforme descrito nos próximos parágrafos, porém foi realizada com algumas alterações para ajustes frente algumas situações que ocorreram antes e durante a viagem!
Partindo de Porto Alegre, em direção à Santana do Livramento/Rivera, atravessaremos a banda oeste do Uruguai e cruzaremos para a Argentina em Paysandú/Colón. Seguiremos então até Buenos Aires pela Ruta 14. Em Buenos Aires gastaremos um ou dois dias para uma última checagem dos veículos, aprovisionamento para as etapas seguintes e, porque não, para conhecermos um pouco mais da bela capital argentina.
A partir deBuenos Aires iniciaremos a fase focal da expedição. Primeiro objetivo, Península Valdez, paraíso natural da fauna oceânica.Largando de Buenos Aires pela Ruta 2 seguiremos por Mar del Plata e depois, pela famosa Ruta 3, até Bahía Blanca. Após, chegaremos em Puerto Madryn, base para a exploração da península. Neste local estão previstos dois dias para o avistamento de fauna, exploração e caminhadas pela península.
Da Península Valdez partiremos num tiro longo, com mais de 1600 quilômetros, em direção ao sul, até chegarmos no segundo objetivo da viagem, o Parque Nacional Los Glaciares. Seguindo pela longa e por vezes monôtona Ruta 3 passaremos por Comodoro Rivadavia, Rio Gallegos, até El Calafate, base para a exploração do parque. O parque é famoso pelos fantásticos glaciares, destaque para o Perito Moreno, que caem nos Lagos Viedma e Argentino. Passaremos dois dias na região, visitando os glaciares e realizando caminhadas em trilhas locais.
Do Parque Nacional Los Glaciares seguiremos 245km para o norte, até El Chaltén, onde visitaremos o famoso Monte Fitz Roy, paraíso dos andinistas, com belas montanhas e trekkings fantásticos.
De El Chaltén começaremos o retorno para casa, mas a expedição ainda não estará finda. Tomaremos a Ruta 40, estrada de ripio (pedriscos que adoram saltitar e estourar o parabrisa dos veículos) cruzando o fascinante deserto patagônico e seus grandes relevos. Nesse caminho visitaremos “La Cueva de las Manos Pintadas”, sítio de arte rupestre datado de 9.300 anos, Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.
Seguindo de “La Cueva de las Manos Pintadas” para Perito Moreno, daí sim, começaremos o nosso retorno. Continuaremos para o norte pela Ruta 40 passando por Esquel e Bariloche. Tomando as Rutas 237 e 22 iremos em direção à Bahía Blanca e depois até Buenos Aires pela Ruta 3.
Daí para diante o caminho segue o inverso da largada. É o trecho final de uma expedição que promete ser fantástica e inesquecível!
A fase de planejamento da primeira viagem para a Patagônia durou quase um ano, de abril de 2005 até fevereiro de 2006. Poxa, dirão alguns, que exagero!!! É, pode até ser, mas eu aprendi muito nesse período, além do mais o conhecimento acumulado veio a ser muito útil no planejamento que estava em curso e nas viagens seguintes.
Durante esse período foram estabelecidas definições muito importantes a respeito da viagem. O percurso da visita abrangeria a partida do Brasil, um breve trajeto pelo Uruguai e seguiria imediatamente para a Argentina, até a cidade de El Calafate, na Província de Santa Cruz, finalizando então com o retorno ao Brasil. A duração da viagem seria de 22 dias entre a ida e a volta. O meio de transporte seria por via terrestre, com o uso do veículo particular. O trajeto teria o formato de um circuito, descendo pela costa leste, mais próximo ao litoral, e retornando pelo oeste, junto da Cordilheira dos Andes.
E porque ir somente até El Calafate e não incluir Ushuaia, ou mesmo adentrar no Chile, que estaria logo ali ao lado? Simplesmente porque a Patagônia é enorme e a opção foi por conhecer menos lugares, investindo o tempo disponível de modo mais consistente em determinadas atrações da região.
Gasta-se uma vida e não se consegue conhecer toda a Patagônia, tamanha é a sua imensidão!
Bem, para mim, planejar é fundamental. É a melhor maneira que eu encontro para otimizar o tempo que estará ao meu dispor durante a viagem. Conheço viajantes que apreciam o improviso e os imprevistos de uma viagem, que se deixam levar pelo que vier ao seu encontro. Nada a opor, trata-se de um estilo pessoal, porém não é o meu, decididamente. Prefiro começar a viajar mentalmente, muito antes da viagem propriamente dita. Adquirir um bom guia de viagem ajuda bastante. O melhor é ter mais de um guia, na medida do possível, pois nenhuma publicação pode ser considerada completa. Abaixo eu coloco uma lista com algumas sugestões de guias que tenho utilizado para viajar na Patagônia:
-Argentina. DannyAeberhard, AndrewBenson e LucyPhilips (tradução Eliana Rocha) – São Paulo: Publifolha, 2004. Trata-se de uma famosa série denominada RoughGuides. Descrito como um guia “cru” ou “rudimentar”, é uma publicação com linguagem acessível, bem resumido, contendo boas indicações e bem interessante. É leve e pode ser facilmente carregado na mochila ou na mão mesmo.
-Chile. MelissaGraham (tradução Carlos Mendes Rosa) – São Paulo: Publifolha, 2005. Da mesma série RoughGuides. Valem os mesmos comentários do anterior.
-Guia Criativo para o Viajante Independente na América do Sul. ZizoAsnis e colaboradores. Porto Alegre: Trilhos e Montanhas, 2005. Site: www.oviajante.com. É um guia feito por brasileiros, para brasileiros. Os guias disponíveis no mercado, em quase sua totalidade, são provenientes de traduções de guias estrangeiros. Este guia procura, digamos assim, focar no jeito de ser e de gostar dos brasileiros e pensa também nas possibilidades financeiras da nossa gente, geralmente com recursos reduzidos para viajar. Em seu conteúdo estão compreendidas a Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela. Considero-o uma boa referência, embora não tenha me acertado com suas dicas de hospedagem. O interessante é que o organizador é uma pessoa acessível e sugestões de melhoria serão bem recebidas. A mesma editora dispõe de outros guias de viagens seguindo a mesma linha de publicação.
-Chile & EasterIsland. Charlotte Beech e colaboradores. LonelyPlanet, 2006. Site: www.lonelyplanet.com. É uma publicação em língua inglesa, cujos autores são viajantes independentes, que produzem suas informações a partir de suas experiências próprias. Considero um guia muito completo, em formato compacto e fácil de carregar. Apresenta muitas dicas interessantes em várias áreas, principalmente para aqueles que curtem a natureza e os esportes radicais. Também tem seu irmão que aborda a Argentina.
Bem, estas são apenas algumas sugestões, pois existem inúmeros guias e incontáveis sites com dicas que auxiliam no planejamento de uma viagem para a Patagônia e América do Sul. Mais adiante eu abordarei outros tipos de referências, tais como mapas de estradas e guias de fauna e flora. Valeu!
Sou biólogo e um apaixonado pela Patagônia e América do Sul. Neste blog conto algo das viagens para a Patagônia, Argentina, Chile, Uruguai, Bolívia, Peru, Colômbia e Brasil também! Escrevo para registrar essas memórias e compartilhar dicas das viagens. Agradeço o seu comentário e deixo o meu muito obrigado aos que nos seguem e interagem conosco! Aliás, esta é a melhor parte de tudo!